“As premissas do capitalismo, mesmo se tratando de um sistema econômico, infunde na aquisição de bens materiais, ou que de algum modo, possam ser comercializados. Assim, rompe-se o paradigma que apenas confinava a um mero sistema produtivo. Isso é fato!”
As circunstâncias inverteram valores e costumes na minha vida, que penso eu, esteja numa relação horizontal, feito a inversão da ponta na extremidade de uma linha, para a outra ponta.
Quando criança costumava guardar pequenas lembranças numa caixa de papel, que tinha como fim embrulhar uma camisa social – a minha primeira e era azul. Lá, eu guardei coisas sem sentido aparente, um anel do meu avô de serviço militar em 64 (que parece ele ter encontrado na rua), a foto do meu vizinho italiano lutador de boxe, uma bolinha de gude transparente com um “smile” pintado a caneta por uma amiga durante a aula, as cartas que trocava com uma carioca (as minhas primeiras aventuras escritas), outras cartas passionais, fotos e algumas miudezas que se pode acumular com o passar do tempo e adquirem algum sentido aparente.
Essas lembranças são mero objetos, inflexíveis de sentimento e qualquer reação humana. Quando penso numa folha de papel, ela traz consigo inúmeras informações da sua origem e/ou ranhuras, quase invisíveis, feitas pelo pó durante o manuseio e transporte. São a substância autoreferente da folha, a sua composição em química, em vida útil. Logo percebo que naquela data, a amante que me escrevia, escolheu uma folha parda, meio-dura, pensando em guardar o grafite no tempo, que a folha se vá, mas que flua no ambiente o valor da sua mensagem carinhosa. Penso que essa seja a confluência entre homem e objeto, e ainda estou pensando, refletindo, num canto qualquer, por que?
A amante aos poucos descobre os meandros do papel, do seu lápis, da mesa em que escreveu, fazendo disso a sua natureza e desvendando um olhar apurado por esse fazer. São coisas do cotidiano, que cá todos fazemos, seja até mesmo desvendar o toque sútil do interruptor do abajur. Esse é o processo de desvendamento. Desvendar a substância de cada objeto numa relação com o nosso corpo, algo sensível.
O que acontece se tirar esses objetos, ou melhor, se a cada dia eles fossem diferentes? O portão e porta são outros, a calçada é outra, a janela, o sofá, a televisão, o chuveiro, o canto que você joga a roupa, a xícara, a mesa, simplesmente quase tudo muda quase todos os dias. Toda a relação pessoal conquistada com o tempo, o conhecimento do controle remoto, o jeito de deitar no sofá, o tapete que os fiapos ficam entre os dedos, parecem então se dissolverem. Emocionante? Sim, mas não se resume a ser bom.
É o que pressupõe a vida “sem teto e sem parede”. De fato, os desvendamentos são constantes e aos poucos algumas coisas se tornam comuns. Por isso, penso que a ausência de material pessoal seja a circunstância das circunstâncias, mesmo que exista em lugares esparsos, se ainda não vendidos, como alguns na casa da mãe e amigos, onde hoje acomodam algumas poucas coisas minhas. Eu percebo que a distância enfraquece o sentido de posse dos objetos que a mim, até então, pertenciam. Já não consigo dizer minha cama, porque a cada dia, alguém diferente dorme nela. As minhas roupas se resumem ao que posso carregar numa mochila e o figurino que cabe numa mala de rodinhas, além de apetrechos de higiene pessoal, cadernos, documentos, etc.
E é essa inversão que provoca mudança de hábitos, de costumes. O cotidiano não tem mais os objetos pessoais, cada dia se renovam e aí deitar-se na cama deixa de ser o momento em que os olhos pesam e a jornada diária acomoda-se na nuca, refletindo sobre os amores, as paixões, sobre pensar em esperar. A cama é outra, já não dá mais esse conforto.
Resta pensar que a morada do ser está em mim e, de algum modo, prosperidade não se aconselha em bens, mas em integridade, na poesia, no que pairar no ar. “Sem teto e sem parede”, agora, mais do que tudo, é desvendar.
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